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Abrindo janelas

Atualizado: 18 de dez. de 2025

O dado atualizado é um elemento importante em Filosofia Clínica. Ele colabora na identificação das mudanças ocorridas ao longo das sessões ou em uma mesma sessão, por isso, faz parte da compreensão dos desdobramentos clínicos.  Juntamente com dado literal, dado padrão e evolução do assunto imediato, eles compõem os critérios para montar a estrutura de pensamento


E são nesses instantes de discurso existencial atualizado, que a pessoa pode apresentar releituras, reinvenções e ressignificações sobre dados passados ou, até mesmo, romper com armadilhas conceituais, surpresa! Admiração! Filosofia! Essa é a matéria prima da clínica: acolher e transitar pela obra aberta partilhante.


É o inesperado revelando-se ao clínico que não tem a totalidade da obra existencial do sujeito, mas, está próximo dele o suficiente para ser um meio pelo qual ele se diz nesses momentos de novidade. Em uma sociedade onde a crise existencial é vista como doença a ser erradicada, perde-se ao desconsiderá-la como precursora de novos tempos. Falta “um olhar carinhoso”, como ensina a artista Raínna Costa.


Uma partilhante em armadilha conceitual dedicando-se a ter filhos, família e um negócio rentável para lhe colocar em uma zona de conforto material, ao defender esse modo de ser, pode, em outro momento, vislumbrar uma fresta para abrir alguma janela antes desconsiderada. Essa novidade pode ou não se concretizar. 


Sua partilha talvez tenha desdobramentos de ensaio intelectivo proporcionando aberturas existenciais em diversas direções, sendo esse, em si, um remédio para apoio às escolhas e buscas. Outras vezes converte-se em novos sonhos, propostas para uma maior integridade com sua singularidade, inaugurando processos de autogenia estrutural que irão exigir ousadia para ser outro.  


Coragem para momentos de travessia quando se decide percorrer novas rotas, sem enxergar claramente o que ainda não chegou. Talvez seja essa uma tradução possível para a expressão “fora de foco” que Hélio Strassburger trabalha em seus escritos: “O terapeuta ao se fazer cúmplice desses roteiros da investigação, compartilha falas, escutas e olhares. Aproximação com o fora de foco da estrutura em busca de encontrar-se.” (Filosofia Clínica: poéticas da singularidade, 2007, p. 10).


Como nosso método trabalha prioritariamente com a coleta da historicidade da pessoa a partir dos exames categoriais, já nesses momentos iniciais dos atendimentos, o mapa existencial do sujeito começa a ser desenhado dentro deste espaço reservado com a intencionalidade do cuidado. 


Através da interseção entre clínico e partilhante, acontece uma reconstrução da história da pessoa revelando como, atualmente, ela percebe, sente, sua trajetória de vida. Uma percepção que pode mudar ao longo dos encontros, ao menos em alguns aspectos. Por isso, também observamos a evolução do assunto imediato.


E quando falamos em montar a estrutura de pensamento do partilhante, queremos dizer que compreenderemos quais são os tópicos determinantes, decisivos na vida do sujeito. Mas, é possível que, ao abrir novas janelas, a pessoa movimente sua autogenia, ou seja, podem ocorrer mudanças desses tópicos que conduzem a vida.


Uma pessoa que funcionava prioritariamente a partir de axiologia, como o mundo parece e aparece e o que acha de si mesmo, pode passar a funcionar a partir de emoções, buscas e axiologia. O dado atual é esse instante pelo qual a multiplicidade de ser que cabe dentro de cada um de nós é revelada.


A surpresa para o clínico acontece, por exemplo, quando o sujeito que estava seguindo por um caminho, decide dar sinal para nova estrada. A tradução de um dado assim admira por ser novidade ao terapeuta, já a pessoa, não raras vezes, apenas desengavetou um sonho que lhe habitou em algum momento anterior, e assim, uma potência de ser surge fenomenologicamente.


Ficou algum rastro da historicidade que dados divisórios e enraizamentos não foram suficientes para o sujeito acessar. Porém, por ser importante, apareceu em clínica avançada. Em um caso, o trabalho por acomodar-se a determinado papel existencial, levou uma partilhante à exaustão, fazendo emergir o que estava guardado. Cansada de si mesma sendo alguém para outros, decide, migrar.


O dado atualizado pode ser precursor de eventos a mudar rumos na vida da pessoa, inclusive, afetando quem convive com ela, por isso, é importante ao clínico observar os elementos que se somam em conjunto. Compreender com a partilhante: quem a apoia; se alguém é contra; se é esse mesmo o seu caminho; como se posicionar... 


Questões vão surgindo a cada atendimento, compondo e amadurecendo as construções compartilhadas. Uma janela aberta pode significar a perspectiva que a partilhante precisava para superar um comportamento repetitivo. Por exemplo: para sair de um casamento que já não faz mais sentido, a pessoa pode iniciar uma nova graduação e encaminhar-se para uma guinada profissional.


Tendo motivação suficiente para fazer a travessia, ainda que lidando com as incertezas da reinvenção, mas com perspectiva demarcada pela busca e capacidade de desfecho, a vida vai se organizando. Algo que não estava no horizonte clínico até então, ao aparecer, pode tornar-se a questão central do processo terapêutico, fortalecendo a pessoa em suas mudanças e gerando bem-estar.


Referências:

STRASSBURGER, Hélio. Filosofia Clínica: poéticas da singularidade. Rio de Janeiro: E-papers, 2007.

Gaiardo, D., Fontoura, F., Strassburger, H., & Caruzo, M. A. Dicionário de Filosofia Clínica. Porto Alegre: Revista Casa da Filosofia Clínica. Edição 08/outono, 2024. Disponível em: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html.


Dionéia Gaiardo

Filósofa Clínica

Formada pela Casa da Filosofia Clínica


Texto publicado na Revista da Casa da Filosofia Clínica.

Edição 15, verão de 2025.


* As expressões em itálico que aparecem no texto referem-se a linguagem específica do método em Filosofia Clínica. Para conferir o sentido e significado delas, acessar o link do Dicionário de Filosofia Clínica: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html.



 
 
 

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