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Qual é o seu lugar? 

Para o antropólogo Clifford Geertz (2017, p. 17) o senso comum pode ser entendido como uma disposição em acreditar nas verdades aprendidas naturalmente, que diferem de um lugar para outro assumindo “uma forma local característica” ou um “saber local”. 


Em Filosofia Clínica, esse tema pode ser pensado a partir do tópico princípios de verdade, o qual, não aparece apenas no que o autor entende por senso comum, mas, por exemplo, na ciência com seus acordos epistemológicos e paradigmas propostos. 


Os princípios de verdade permeiam instituições, movimentos, tribos, às quais um grupo de pessoas compartilha ideias que fazem sentido para elas, produzindo, entre outras coisas, conhecimentos próprios. Esses saberes também incluem tópicos como axiologias, termos agendados no intelecto, significados, e outros que não falaremos neste texto.


Geertz nos ajuda a entender que muitos desses agendamentos adquiridos ao longo de nossa vida originam-se e sustentam-se no “saber local", da cidade onde resido, família, trabalho... Aspectos que reverberam na singularidade, distinguindo situações em acordo ou desacordo com cada lugar.


Inicialmente considerando o lugar geográfico onde se está. Em seguida, olhando para questões subjetivas como: quais vivências cada local nos permite transitar; se, enquanto sujeitos, nos sentimos à vontade ou não pertencentes, etc. Quando em desacordo, esse deslocamento provocado por princípios de verdade e representações de mundo, pode repercutir na pessoa.


Olhar para o fenômeno e compreender que aquele grupo, em dado momento, não representa como o mundo parece e aparece para o partilhante contribui na busca por novos horizontes, alternativas de um lugar onde se mova com maior liberdade e experimentação, naquilo que é ou no que deseja ser, caso importe.


Essa acomodação interna inclui percepções subjetivas de cada indivíduo e reflete sua expressividade, seja de rejeição ou desencaixe, seja de pertencimento e bem-estar. De qualquer modo, isso será compreendido em clínica, a partir dos dados da singularidade


Podem ocorrer casos em que a pessoa vive predominantemente uma espacialidade intelectiva via inversão. Focada em si, o lugar com seus modos de pensar e fazer, não interfere a ponto de limitar o bem-estar ou a concretização dos objetivos próprios. Além disso, fatores locais podem funcionar como ingredientes para se pensar diferente e colocar-se em oposição, apresentando novidades. 


Lembro do caso de Antonio Gramsci, filósofo italiano que, mesmo preso pelo regime fascista, seguiu escrevendo. Em “Cadernos do cárcere”, contribuiu ampliando as reflexões marxistas ao elaborar novos conceitos para pensar e transformar o mundo conforme sua visão. 


Durante a hora sessão, notamos os desencaixes como um dos indícios de alguém que necessita expandir horizontes existenciais em busca de novos conhecimentos, novas formas de fazer e ser, novos territórios para explorar. Isso em nada desautoriza ou desvaloriza o grupo de onde a pessoa se afasta; ao contrário, sua saída pode colaborar para reconciliações e reinvenções.


Nesse sentido, um dos fenômenos que ocorre é a pessoa experimentar-se em novas rotas e, mais tarde, decidir voltar ao local de origem, o qual, estará mudado, ao menos em alguns aspectos, assim como a pessoa. Mas, geralmente, encontra fatores decisivos para se acomodar, como o exemplo de uma partilhante que após um período de estudos, experiências em outras cidades, já bem estabelecida em sua área de trabalho e com filho, busca retornar à cidade onde foi criada. 


Lembro do caso de um advogado que relatou sua frustração em não conseguir estabelecer laços ao residir na Itália. Já no Brasil, entre os italianos daqui, sentia-se como filho. A forma com a qual as pessoas se relacionavam naquele país, foi determinante para seu retorno, enquanto a mudança de lugar contribuiu ao revelar o mais importante. 


Outra situação interessante é a de um cozinheiro que foi para a Nova Zelândia. Após seis meses conseguiu trabalhar em sua área, adaptou-se facilmente com as regras do lugar e lá permanece. Decepciona-se toda vez que retorna ao Brasil e nota a pobreza ou algo afrontando sua estrutura de pensamento. Isso é assim para ele. Cada um constrói percepções, significa e faz escolhas conforme seu padrão autogênico


Situações nas quais a pessoa é obrigada a persistir dentro de um grupo familiar, empresarial, de amigos etc., quando este não faz sentido para ela, pode representar pouco espaço para o exercício da singularidade, gerando desconforto existencial e somaticidades. Já a saída em busca de descobrir e experimentar, pode revelar ganhos, com a pessoa conseguindo comunicar de modo mais íntegro aquilo que é ou ensaiando o que está por vir.


No fundo, como bem observou Geertz, trata-se da “forma como se lida com um mundo onde determinadas coisas acontecem”, dos submodos ao conduzir as concordâncias e discordâncias em relação ao que a vida nos apresenta. Em clínica, o trabalho acontece via construção compartilhada, na busca por compreender a singularidade e desenvolver alternativas de bem-estar subjetivo a partir de sua circunstância.


Referências:

GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Tradução de Vera Joscelyne. 14. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

Gaiardo, D., Fontoura, F., Strassburger, H., & Caruzo, M. A. Dicionário de Filosofia Clínica. Porto Alegre: Revista Casa da Filosofia Clínica. Edição 08/outono, 2024. Disponível em: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html.


Dionéia Gaiardo

Filósofa Clínica

Formada pela Casa da Filosofia Clínica


Texto publicado na Revista da Casa da Filosofia Clínica.

Edição 14, primavera de 2025.


* As expressões em itálico que aparecem no texto referem-se a linguagem específica do método em Filosofia Clínica. Para conferir o sentido e significado delas, acessar o link do Dicionário de Filosofia Clínica: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html.

 

Foto de KoolShooters : https://www.pexels.com
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