Dardo, entre roteiros e reflexões
- DIONÉIA GAIARDO
- 27 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Tem canções da “Cidadão Quem” e flores coloridas nos vasos de poá. As plantas revelam cheiros. Manjericão, alecrim, lavandas... Quais sensações acompanham seus dias? A rede na sacada convida ao descanso. O dardo serve para os dias de treinar o alvo. Entre atendimentos, aulas de Filosofia Clínica ouvindo o Professor Hélio Strassburger e reflexões sobre clínica filosófica lendo Claudio Fernandes, busco algo para beliscar.
É interessante pensar como funcionam os roteiros de estudo de cada um que se propõe a esse fazer. Outro dia conversei com uma mãe que achava errado seu filho ouvir música alta enquanto estudava e exigia que o fizesse em silêncio, impondo sua axiologia. Do outro lado, o menino apresentava notas baixas, falta de vontade, algum senso de revolta contra a mãe, estabelecendo uma interseção negativa enquanto dado atual.
Isso pode aparecer quando interferimos no mundo do outro a partir do que é nosso, desconsiderando a compreensão do seu modo de ser. A relação clínica não escapa dessas nuances, por isso, um dos exercícios fundamentais do filósofo clínico é a capacidade de redução fenomenológica, exigindo do terapeuta uma renovação constante em busca do singular.
Afinal, pode ser que para algumas pessoas o barulho da música acalme outros ruídos da mente ou cumpra alguma função importante, a ponto de gerar bem-estar e concentração para determinadas tarefas. Nesse sentido, notar as rotas de aprendizagem da pessoa em seu contexto, pode revelar caminhos possíveis, submodos, para acolher e avançar em suas questões.
Para a mãe, o relato possibilitou o ajuste de interseção, com auxílio de hipótese e atalho (é possível que seu filho aprenda mais ao ouvir música alta enquanto estuda, o que você acha disso?...). Considerando que a mãe apresentava a busca pela positividade na relação com o filho, a intervenção foi feita sem perder de vista que o alvo a ser treinado pelo terapeuta é a singularidade daquele que compartilha sua vida conosco.
Seguindo o roteiro do dia…um desenho agora quer aparecer, quem sabe um suco gelado para refrescar o calor deste nosso Sul. Malu Magalhães e Norah Jones acalmam alguma coisa demasiado subjetiva, necessária para a expressividade se revelar no papel. Essa esteticidade seletiva representa, em mim, um interesse muito antigo pelas formas de expressão humanas, as marcas que cada um deixa, suas pegadas, possíveis traduções de uma alma, de uma época, de um povo.
Vejo a noite adormecendo com o centro da cidade, agora em silêncio, e a lua brilhando ao apagar das luzes. Dividimos segredos. Confundo os dela com os meus. A categoria relação ultrapassa a interseção com pessoas...para alguns pode se dar prioritariamente com animais, plantas, livros, lua... Uma calma quer me habitar, apareceu nesses últimos dias em que lido com as decisões já tomadas, as quais posso ressignificar, se necessário.
Me disseram que a vida exige plasticidade, e mesmo bem-vinda, algumas coisas agora devem permanecer como são. Uma casa só, com janelas abertas, as plantas para regar e Billie Holiday cantando…sem pressa para atingir o alvo do dardo, em tempo próprio podemos experimentar os ensaios possíveis, incluindo a experimentação das margens. Aquilo que, não sendo central, pode ser interessante e nos compor, ampliando e enriquecendo nossos dias.
A alma que intenciona explorar o mundo, nem sempre se satisfaz com o que a sociedade lhe apresenta. Sua tendência é criar mundos, universos próprios; para isso temos o privilégio de viver e revelar o gênio que habita em nós, tudo que é possível apresentar enquanto originalidade, reinventando formas de existir e conviver mais autênticas, que caibam em um tempo singular, não imposto. Em um ritmo que não atropele.
Algumas pessoas que desconhecem ou que são destituídas desse tempo e ritmo próprios acabam empurradas aos abismos dos consumos objetivos e subjetivos, muitas vezes submetidas a padrões onde não cabem, colhendo somaticidades nem sempre reversíveis. Noto que a terapia é uma possibilidade de transitar pela malha intelectiva, reconhecendo territórios inexplorados, fronteiras, limites. Ampliando o saber sobre si...
A rede na sacada embala minhas ilusões. No aconchego do lar solitário é possível grande margem de liberdade de pensamentos, especialmente com o frescor da noite onde a vida se aquieta lá fora, abrindo espaço para o que pulsa dentro da gente. Alguns fluxos de ideias se complementam, outros parecem demasiado contraditórios. Diante de circunstâncias específicas, um filósofo clínico me disse que "as incompletudes nos completam..."
Talvez um alento para a alma poder sentir-se completa diante das incompletudes da vida. Uma autorização assim, não é raro que só se consiga em clínica filosófica. Sem urgência para algumas respostas ou decisões, é possível contemplar caminhos existenciais e respeitar rituais de passagem, sem perder de vista o alvo, aquilo que nos estrutura.
Afinal, nem sempre é fácil ou rápido mover-se daquilo que fomos em direção àquilo que seremos. Exercícios de plasticidade e tempo próprio podem contribuir para fazer aparecer o que é importante...
Referência:
Gaiardo, D., Fontoura, F., Strassburger, H., & Caruzo, M. A. Dicionário de Filosofia Clínica. Porto Alegre: Revista Casa da Filosofia Clínica. Edição 08/outono, 2024. Disponível em: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html.
Dionéia Gaiardo
Filósofa Clínica
Formada pela Casa da Filosofia Clínica
* As expressões em itálico que aparecem no texto referem-se a linguagem específica do método em Filosofia Clínica. Para conferir o sentido e significado delas, acessar o link do Dicionário de Filosofia Clínica: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html.






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