Ideias, cravo e canela
“A morte é para onde se direciona a vida, mas como é difícil morrer, abandonar quem fui e ser uma nova versão, melhor pra mim”.
Ouvi em clínica. Silenciei. Somos humanos atendendo outros humanos, atravessados por suas representações de mundo. Hélio Strassburger escreveu um texto em 2024 com o título: “De quantas mortes você já ressuscitou?”, o qual dialoga sobre a estética das mortes subjetivas e os renascimentos. Enquanto um vice-conceito, essa ideia pode fazer sentido para alguns partilhantes em seus processos de existência, ao servir como despedida das versões ultrapassadas de si mesmo.
Uma designer de moda morre aos poucos enquanto gesta a biomédica. Um professor decide encerrar sua carreira por convicção ao dar espaço para o nascimento do artista e cuidador. Uma alma livre viajando pelo país, em outro momento, ao estabelecer afetos e laços de família, passa a sentir liberdade onde é permanência. Câmbios de passagem. Rituais de transformação pedem pontes do antigo para o novo endereço existencial. Favorece ter consciência das mortes voluntárias e involuntárias, ao menos para quem prefere seguir em frente.
Dadas as circunstâncias singulares, querer nem sempre se configura em poder, ainda assim, persiste o buscar. E na busca se encontra caminho, obstáculos, desbravamento, desvelamento. Aquilo, antes obscuro ou fora de foco, pode vir à luz. Em um emaranhado de significados e sentidos próprios, pré-juízo e axiologia saltam para movimentar o tópico sensorial e abstrato, uma interseção a viabilizar sonhos: “feito é melhor que perfeito”. Uma malha intelectiva assim, não está interessada em permanecer na perfeição do mundo das ideias. Urge transformar, produzir o palpável.
Comportamentos, muitas vezes vistos de fora como falta de foco, impermanência, insegurança, inconstância, podem ser fermento para crescer, ou, caldeirão que resulta em medicina própria, mesmo quando a pessoa pouco se reconhece em suas ações, escolhas e consequências. Nesse processo, nem sempre o partilhante sente incômodo ou algum sofrimento, mas as pessoas de seu convívio podem não compreender seus movimentos, expressando dificuldades ao conviver com uma estrutura de pensamento transbordante, especialmente se inserida em lugares com princípios de verdade rígidos e suas tendências a sufocar o criativo, aquele que foge dos padrões.
Ao transitar em recíproca de inversão por essa singularidade, é preciso silêncio e acesso aos seus vice-conceitos. Conversar na dimensão de suas ideias complexas, compreender seu mapa intelectivo. Em seguida, é natural oferecer companhia para ajudá-la, em tempo próprio, a fazer esse retorno ao mundo das sensações, onde encontra conforto no aqui e agora. Apreciando o cheiro do chá de cravo e canela que ferve no fogão, cuidando das plantas no jardim, regando a samambaia que se renova conforme as estações ou assimilando autogenias durante retiros de meditação.
Pensar e sentir muito para essa pessoa é sinônimo de voos extraordinários, lá onde encontra a solidão, um dos efeitos colaterais de sua farmácia interna. O filósofo clínico, companheiro dessas horas, também é o meio pelo qual ela exercita movimentos de retorno ao solo firme, ajudando a vivenciar esses roteiros. Concentrada no presente, transforma a matéria prima colhida nas alturas, em exposições, colagens, edições, ilustrações. Estabelece trabalhos afetivos com comunidades em busca de saber mais sobre suas origens e ancestralidade.
Autogenias do abstrato ao sensorial atualizam os significados dos registros que faz através de seus trabalhos em livros, documentários, nas relações interpessoais. Almas propícias a movimentações, sejam elas subjetivas ou objetivas, tendem a lidar com mortes ao passar por muitas mudanças e nos fazem pensar na importância da filosofia de Heráclito ou nos conceitos de impermanência da filosofia oriental, porque lê-los talvez nos ajude a exercitar a plasticidade, transitando com maior familiaridade por esses padrões autogênicos e no próprio trabalho diário de escuta.
Atravessados por tamanha pluralidade existencial, o processo de escrita do filósofo clínico inclinado a pensar sua prática, aparece impregnado dos modos e submodos apreendidos com os partilhantes, os quais relembra enquanto reflete seu fazer. Esse processo evidencia a impossibilidade de tradução do fenômeno humano. Como então, conviver em uma sociedade recheada de certezas, diagnósticos, tratamentos invasivos e agressivos para corrigir comportamentos?
A tentativa de ensaios na escrita talvez corrobore com a necessidade da hermenêutica compreensiva aberta em nossa abordagem clínica. Uma abertura que por si só, já indica ser um novo paradigma ao interromper o curso de normatividade no governo dos corpos e mentes e alcançar, mesmo em breves instantes de plena interseção com os partilhantes, suas existências em andamento e a evocação da melhor versão a partir da Musa singularidade.
Referência:
Strassburger, Hélio. De quantas mortes você já ressuscitou? *
Disponível em: https://heliostrassburger.blogspot.com/2024/05/de-quantas-mortes-voce-ja-ressuscitou.html. Acesso em 31 de julho de 2026.
Dionéia Gaiardo
Filósofa Clínica
Formada pela Casa da Filosofia Clínica
Texto publicado na Revista da Casa da Filosofia Clínica.
Edição 18, primavera de 2026.
Acesse a Revista completa em: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2026/09/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-primavera-2026.html
* As expressões em itálico que aparecem no texto referem-se a linguagem específica do método em Filosofia Clínica. Para conferir o sentido e significado delas, acessar o link do Dicionário de Filosofia Clínica: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html






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