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Indícios de acomodação autogênica

Ao pensar as transformações existenciais ocorridas no processo clínico filosófico, escrevi alguns textos em edições passadas para a Revista da Casa da Filosofia Clínica. Eles indicam momentos nos quais a pessoa está em travessia, isto é, não se identifica mais com sua versão anterior e pouco sabe quem será, causando muitas vezes um torpor, inércia diante do desconhecido, insegurança diante das incertezas, estranhamento, sensação de perda, excitação, alegria...tudo isso depende da composição da malha intelectiva singular, mas indicam mudanças. A busca pela terapia pode funcionar como uma base; a ponte que possibilita a caminhada de um lugar até o outro. 


Assim, em construção compartilhada com o clínico, o partilhante pode exercitar uma estruturação tópica provisória, gerando certo nível de segurança, suficiente para seguir seus dias. Não raramente de uma sessão para outra a dinâmica muda, afinal, o sujeito está acessando dados de sua historicidade e se reelaborando a partir dos procedimentos clínicos. Esses deslocamentos longos ressoam, por isso, é comum ocorrer relatos onde a pessoa conversa consigo mesma através da figura do terapeuta. A clínica não acontece apenas na hora sessão, ela torna-se organismo vivo a acompanhar os dias de quem se trabalha e isso está distante de conceitos de cura e diagnósticos que aprisionam.


A Filosofia Clínica acompanha o devir onde uma singularidade, um núcleo único exerce a sua movimentação vital. Fenômenos impossíveis de aprisionamento apresentam-se a cada instante em nuances de intensidade. Conviver e autorizar essas manifestações diz respeito àquele ou àquela que acolhe e se coloca à disposição para ouvir e dialogar. Para isso, não nos interessa o tipo de saber que classifica. Não é uma questão de desautorizar esse saber, mas de superá-lo inaugurando novas direções talvez mais propícias ao mundo contemporâneo. 


Com uma perspectiva didática, pode-se dizer que, após esse processo de travessia, os partilhantes apontam indícios de acomodação autogênica, os quais surgem com a consolidação de desfechos em direção àquilo que antes era verbalizado. Quando a palavra falada vai construindo caminhos para as novas ações, os comportamentos em dado atualizado, funcionam como a síntese das teses e antíteses ensaiadas em diálogo. Com uma aproximação entre o que se diz e o que se faz, integridade e autenticidade geram satisfação pessoal.


Acompanhei o caso de um partilhante que dizia: “aposentei o meu juíz”. A partir dessa afirmação exercitava-se sempre que caía em armadilhas de autojulgamento e culpa. Foi com esse submodo em alinhamento com outros procedimentos clínicos, que ele passou a experimentar-se na vida de uma maneira mais maleável, exercendo maior plasticidade existencial a distanciar-se da rigidez que a presença do “juíz” exigia. Esse vice-conceito representava o lugar interno recheado de agendamentos a boicotar sua expressividade, esteticidade seletiva e buscas


Em tempo próprio permitiu-se experimentações de sua expressividade nas relações com outras pessoas e na produção artística, suas principais buscas. Como efeitos colaterais vieram o corte ou a redução de vínculos com grupos e pessoas que sustentavam a composição estrutural a qual desejava superar. Dessa forma, foi reconhecendo e fortalecendo o que acha de si mesmo e representação de mundo


O acompanhamento atento e em direção ao que importa para o partilhante, permite que ele crie modos de se viabilizar no mundo. Outras vezes as sugestões do filósofo orientam sua direção. Um livro, um filme, visitar a amiga querida, fazer mais uma viagem, o afastamento de determinados ambientes, o jogo de futebol de sábado, um curso, emprego novo...são prescrições com base na historicidade e desejos manifestos por cada um, visando transformar inquietações e sofrimentos em bem-estar subjetivo.


Distante das internações involuntárias ou medicamentosas, o trabalho com a Filosofia Clínica proporciona autonomias e libertações duradouras porque a pessoa passa a estabelecer limites e fronteiras ao navegar e reconhecer seu território próprio. Assim como, pode flexibilizar vizinhanças, passagens, aproximações. Isso contém uma estética da vida, uma arte de fazer-se para si mesmo em interação com o mundo. 


O fato de remodelar suas relações foi abrindo espaço para descobrir e acessar novos grupos de interesse alinhados com seus sonhos. Conquistando novas amizades, apareceram outras buscas. Experimentando de forma constante suas esteticidades seletivas, antes proibidas pelos agendamentos, descobriu que isso eleva sua energia. Mesmo após um dia de trabalho burocrático em emprego concursado, ao colocar na tela tinta e expressão, o cansaço vai embora. Hoje autoriza-se a sentir o prazer e a alegria dessa mudança. Nesse caso, são indícios de acomodação autogênica. 


Uma etapa clínica menos investigativa vai direcionando as construções para a consolidação daquilo que o sujeito queria. A alta nesse momento contém o risco do trabalho desenvolvido até então, não se concretizar, pois o partilhante pode ter recaídas ou recorrer aos antigos hábitos para viabilizar suas questões. Penso que a consolidação desse novo pode ser a chave para uma clínica efetiva.


Dionéia Gaiardo

Filósofa Clínica

Formada pela Casa da Filosofia Clínica


Texto publicado na Revista da Casa da Filosofia Clínica.

Edição 1, inverno de 2026.


* As expressões em itálico que aparecem no texto referem-se a linguagem específica do método em Filosofia Clínica. Para conferir o sentido e significado delas, acessar o link do Dicionário de Filosofia Clínica: https://casadafilosofiaclinica.blogspot.com/2024/03/revista-da-casa-da-filosofia-clinica-outono-2024-dicionario.html







 
 
 

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